terça-feira, 24 de abril de 2018

TEMPO MÁGICO



              Dona Ivete, a pequenina Carmen Sílvia e José Lopes.


MINHA AMIGA CARMEN SILVIA LOPES ENVIOU-ME ESTA PRECIOSIDADE DE IMAGEM: 
 CARMEN SILVIA, A PEQUENINA, SEU PAI JOSÉ ÁLVARO LOPES E SUA MÃE, A MINHA ETERNA E SÁBIA PROFESSORA, IVETE ELIAS! IVETE A QUEM DEVO TUDO QUE APRENDI. PORTANTO, MINHAS SINCERAS REVERÊNCIAS!
 O REGISTRO É DE MEADOS DOS ANOS 60. FAZENDA IRARA, FAZENDA EM QUE REPOUSAM FATOS HISTÓRICOS, O APOGEU DO CAFÉ E DA POLÍTICA PAULISTA, ETERNIZADOS NA FAMÍLIA BARROS.
 EU CREIO QUE NÃO SEI BEM O QUE DIZER TANTO DE DONA IVETE QUANTO DE ZÉ LOPES, COMO NÓS SEMPRE O CONHECEMOS.
 O CASAL FOI MUITÍSSIMO AMIGO DE MEU PAI, O MOTTA.  EU ME LEMBRO DA PERUA ALARANJADA QUE ELES TINHAM, E DE QUANDO TODOS NÓS VÍNHAMOS PARA LENÇÓIS. DONA IVETE VINHA CANTANDO COM O MEU PAI... CANTAVAM BEM... "PÉROLAS" IMORTALIZADAS NAS VOZES DE CASCATINHA E INHANA... E NOSSOS OUVIDOS RECEBIAM CASCATAS DE NOTAS MUSICAIS DO BOÊMIO POLÍTICO E SUA PARCEIRA, A CANTORA PROFESSORA. PEQUENA EM TAMANHO E COM A GRANDEZA NO TIMBRE DE SUA PODEROSA E EMOCIONADA VOZ. NOSSAS ALMAS ENCANTAVAM-SE COM AQUELAS POESIAS PARA A ALMA.
 E O ZÉ LOPES, SEMPRE PARCEIRÍSSIMO DE MEU PAI! NA MILITÂNCIA POLÍTICA E PARTIDÁRIA, NA VITÓRIA, NA DERROTA, NA "PINGUINHA” ANTES DO ALMOÇO, E OBVIAMENTE, NAS GARGALHADAS! NAQUELAS TARDES SE SOL GUEDENSE, MINHA MÃE QUE SEMPRE NOS ACOMPANHAVA, TRANSBORDAVA AS SUAS POESIAS DE SEU SILENCIOSO E SURREAL OLHAR. MINHA MÃE NUNCA PRECISOU MUITO DE PALAVRAS PARA SE EXPRESSAR, E SUAS MÚSICAS SEMPRE FORAM CANTADAS PELO SEU ESPÍRITO VIAJANTE. SUAS RESPOSTAS DE VERDADEIRO ORÁCULO SE FAZIAM NA DANÇA DE SUA RESPIRAÇÃO.
 RECORDO-ME VAGAMENTE, DE UMA PASSAGEM NOTURNA, EM QUE DONA IVETE E ZÉ LOPES COMPRARAM UM CARRO, UM OPALA DE COR ESCURA, EU CREIO, E PASSARAM EM NOSSA CASA PARA UM PEQUENO PASSEIO, QUE SALVO ENGANO, DEVE TER SIDO PARA TOMAR SORVETES.
 VIZINHOS NOSSOS, PARCEIROS INCRÍVEIS.
 MAS TANTO EU COMO MINHAS AMIGAS E AMIGOS QUE FOMOS SEUS ALUNOS, NOS FIXAMOS NA MESTRA MARAVILHOSA QUE ELA SEMPRE FOI. EXÍMIA EDUCADORA, COM O PORTUGUÊS ABSOLUTAMENTE IMPECÁVEL, COMPETENTÍSSIMA EM SALA DE AULA, IMPREGNOU-SE EM NÓS! AINDA ESTÁ AQUI DENTRO DE MIM. E ESTÁ DENTRO DOS OUTROS, CERTAMENTE.
 E EM SUAS ATIVIDADES, O CULTO À BANDEIRA TINHA REALMENTE UM IDEAL ESTADISTA, NAS POESIAS DAS COMEMORAÇÕES CÍVICAS HAVIA UMA SONORIDADE VOCAL AUSTERA E FORMAL... MAS O INESQUECÍVEL MESMO ERA QUANDO CANTAVA PRA NÓS NOS FINAIS DE AULA: "o céu mais lindo, mais cor de anil...” OUTRAS VEZES ERA "se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes..." E O NOSSO AMOR PASSAVA E PASSAVA POR ESSAS RUAS DE PEDRAS HISTÓRICAS DE INESTIMÁVEL VALOR. E O CÉU MAIS LINDO, NOS ASSISTIA EM PROSAS E EM VERSOS, INDO E VOLTANDO NO TEMPO.
 E NÓS, NA SENSIBILIDADE BRUTA DE CRIANÇA, ÍAMOS EMBORA PARA AS NOSSAS CASAS, COM UM BRILHO DE ENTUSIASMO NOS OLHINHOS QUE TENTAVAM IMAGINAR O FUTURO. NA BAGAGEM DA ALMA, O ENCANTAMENTO QUE ELA DERRAMAVA, EMBEBIA AS NOSSAS EMOÇÕES MAIS CARAS!
 SEMPRE LECIONANDO EM NOSSO AMADO LUGAR, NOS DEU A HONRA E O PRIVILÉGIO DE SERMOS ALFABETIZADOS POR ELA. E DEU AO DISTRITO DE ALFREDO GUEDES, O PRESENTE DE TER ALFABETIZADO VÁRIAS GERAÇÕES.
 RECORDO-ME DE SUA ELEGÂNCIA ESCREVENDO NA LOUSA, DE BLUSA ESTAMPADA ACINTURADA POR UM CINTO DO MESMO TECIDO, SOBRE A CALÇA SOCIAL, METICULOSAMENTE BEM CORTADA.
 RECORDO-ME DE SUAS MÃOS MORENAS E LINDAS, AS UNHAS CLASSICAMENTE BEM FEITAS COM ESMALTE VERMELHO, DEBRUÇANDO-SE SOBRE NOSSAS CARTEIRAS A FAZER CORREÇÕES NOS EXERCÍCIOS. PERFEITA! AUSTERA! IMPECÁVEL!
 E EU NÃO PODERIA DEIXAR DE RESGATAR A MARAVILHA QUE ERAM OS BOLOS DE ANIVERSÁRIO QUE ELA FAZIA PARA AS FILHAS, BRILHANTES DE CONFEITOS DE BOLINHAS PRATEADAS ADORNANDO UMA MASSA LEVE, RECHEADA COM UM CREME VERMELHINHO QUE REMETIA A TODAS AS FRUTAS VERMELHAS. NUNCA MAIS COMI IGUAL.
TENHO COMIGO UM VERDADEIRO TESOURO EMOCIONAL DE GUARDADOS, QUE EM REALIDADE EU NEM ME LEMBRO, MAS MINHA MÃE AINDA ME CONTA QUE QUANDO EU NASCI, FOI A DONA IVETE QUE CUIDOU DE MEU UMBIGO DE BEBÊ, ATÉ QUE ELE CAÍSSE. TODO O SEU CUIDADO E ZELO, FORAM DADOS AOS MEUS PRIMEIROS DIAS, PERFUMANDO OS MEUS PRIMEIROS BANHOS DE ETERNA SAUDADE E INFINDÁVEL GRATIDÃO.
                            Dona Ivete, competentíssima professora do Distrito de Alfredo Guedes.

 AO SAIR DA ESCOLA CECÍLIA MARINS BOSI, A PROFESSORA IVETE SEMPRE DAVA UMA PARADINHA SOB A LINDA PRIMAVERA DA CASA DE MINHA AVÓ LAZINHA. ALI NO PORTÃO TROCAVAM UM DEDILHAR DE PROSA, AINDA ANTES DO ALMOÇO, ELA, MINHA AVÓ, MINHA MÃE E MINHA TIA NADIR.
EM NOSSAS AFINIDADES, MAIS TARDE, NA MINHA VIDA ADULTA, ADQUIRIMOS COM AS PODAS E CORTES DO PASSAR DO TEMPO, A DIFICULDADE DE FALAR DA PASSAGEM DE MEU PAI. TODAS AS VEZES QUE O FIZEMOS, CHORAMOS MUITO DE SAUDADES.
 EU DO MEU PAI. ELA DO AMIGO LEAL, DO BOÊMIO POLÍTICO QUE CANTAVA LINDAMENTE NUMA PERFEITA SINTONIA COM ELA, TODO O ARSENAL CULTURAL, IMORTALIZADO NAS VOZES DE PERLA, BELMONTE E AMARAÍ, CASCATINHA E INHANA E NELSON GONÇALVES.
 E O ZÉ, JÁ FAZ TEMPO QUE NÃO VEJO. MAS CREIO QUE NADA TENHA MUDADO EM SUA LEALDADE E BOM HUMOR DE SEMPRE. O TEMPO PASSOU, AGREGOU COISAS EM NOSSAS BAGAGENS E EM NOSSAS MEMÓRIAS.
 MAS A NOSSA ALMA SEMPRE HÁ DE DEIXAR-SE FLORIR APÓS CADA PODA QUE A VIDA DÊ.
 O AMOR NÃO PASSA PARA OS BONS. E O ENTUSIASMO NUNCA HÁ DE NOS FALTAR!
 POIS JÁ FOMOS IRREMEDIAVELMENTE CONTAGIADOS E SEDUZIDOS PELO BELO E PELO DIVINO... AGRACIADOS, TODOS NÓS! 
                                                                                          
                                                                                            guardiadelendas.blogspot.com
                                                                                            Célia Motta.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O lendário "Chico Peão"



Figura das mais relembradas entre os mais antigos, inspirador das mais contagiantes ondas nostálgicas, alma iluminada e coração de bondade é o nosso memorável do dia de hoje: Chico Peão.
Moço bonito e elegante, carregando a força e a poesia de suas raízes ancestrais na sua bela cor, viveu na Guardiã de Lendas, honrando a imortalidade de nosso garimpo.
Casou-se com a não menos lendária, Dona Rosa, e foi padrasto do nosso inesquecível amigo Belo, pelo qual eu tenho imenso respeito, devido ao tempo mágico que passei com todos os filhos de Belo e Dona Elza, a sua esposa, nora de Chico.


Belíssimo também, o charmoso Chico Peão, segundo contam, era um apaixonado por músicas regionais, músicas genuinamente caipiras, tendo uma preferência notória por catiras.
E quando estava ouvindo algo caro para a sua alma de bom gosto, nem adiantava chamá-lo ou cumprimentá-lo, tamanho o devaneio de Chico. Era impossível trazê-lo de suas viagens de poeta nato.
A imagem aqui publicada, é uma das tantas que embelezam o antigo álbum da Família Lourenço, pois a família toda tinha grande amizade com o garboso moço de pele e musicalidade preciosas.
Chico Peão trabalhou tempo para o senhor Macedo Antonio Fidélis, na Fazenda Reserva, lá para os lados da Água de Lençóis.
E hoje, aqui ouvindo Cascatinha e Inhana, cantando "Flor do Cafezal", imaginando os antigos cafezais coloridos e as alegres colheitas, pensando no ar que exala a beleza dos grãos em flor, pensei em Chico... e como eu gostaria de tê-lo conhecido... como eu queria... flor do cafezal, Chico em flores exaltado... Peão a girar... Venha conosco, bailar... bailar...

                                                                                            guardiadelendas.blogspot.com
                                                                                             Célia Motta.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

"INVERNOS LONGÍNQUOS"


MARAVILHOSO COMO AS PESSOAS QUE NOS RODEIAM EM TENRA IDADE NOS MARCAM E NOS CARACTERIZAM... CONSTROEM OS PILARES DE NOSSA MAIS PROFUNDA IDENTIDADE!
 NAS ÚLTIMAS NOITES TENHO DIVAGADO, E DIRIA ATÉ QUE TENHO VAGADO POR CERTOS ESPAÇOS NO TEMPO E NA ALMA, ESCONDERIJOS COM PEQUENAS LUZES FOSCAS E AMARELADAS, ESPALHADAS PELOS CANTOS... DAQUILO QUE CONSIGO CAPTAR DE FATO, TUDO SE PINTA EM MARROM E DOURADO. CORES DESBOTADAS PELO TEMPO, PÉTALAS DE ROSAS RESSECADAS PELO CONSTANTE CAMINHAR DOS PONTEIROS DO VELHO RELÓGIO QUE MEU AVÔ RELIGIOSAMENTE ACERTAVA TODOS OS DIAS COM A PEQUENINA CHAVE. ALI SOBRE A CADEIRA, AQUELE HOMEM DE AR AUSTERO, FIRME E CHEIO DE HISTÓRIAS, CASOS E CAUSOS, AINDA ESTÁ A ACERTAR OS PONTEIROS DO SEU TEMPO. A MADEIRA DO CHÃO ESTALA QUANDO ELE DESCE E CAMINHA DOIS OU TRÊS PASSOS, A PARAR NA PORTA E ASSISTIR UM POUCO DO NOTICIÁRIO DA TV EM PÉ.
 SEMPRE FAZIA ISSO... E O VEJO LÁ...AGORA.
 BATIDAS NA PORTA DA FRENTE ANUNCIAM O MOMENTO MAIS ESPERADO DURANTE TODO O DIA: NADIR ESTÁ CHEGANDO. FICARÁ CONOSCO ATÉ ALTÍSSIMAS HORAS ESPERANDO ELIZEU, SEU MARIDO E MEU TIO INESQUECÍVEL, QUE CHEGARÁ DE TREM!
 TIOS QUERIDOS E INSUBSTITUÍVEIS! ELA, A BELA MULHER DA FOTO EM PRETO E BRANCO, IRMÃ DE MINHA MÃE, E ELE, SEU MARIDO TELEGRAFISTA, METICULOSO, MINUCIOSO E ÀS VEZES INCOMPREENDIDO POR ALGUNS. QUERIDO POR MIM, QUE SEMPRE ENCONTREI NELE UM ESPÍRITO AMIGO E COMPANHEIRO DE TODA E QUALQUER HORA. MEU CONFIDENTE DA VIDA ADULTA!
 DURANTE TODO O DIA EU ESPERAVA PELA CHEGADA DE NADIR À NOITE. PRESENÇA QUE FAZIA FESTA EM NOSSA CASA.
 MADRINHA (MINHA AVÓ), A PREPARAR CAFÉ E LEITE ADOÇADO. MINHA MÃE CUIDANDO DO JANTAR DE MEU PAI E TIA EDITHE TODA MEIGA E DOCE COM TODOS ALI... SEMPRE...
 EU VIA EM NADIR ALGO MUITO DIFERENTE DO COMUM... ACREDITAVA QUE ELA TINHA ESPÍRITO DE ARTISTA, SEMPRE BONITA E ANIMADA, BEM HUMORADA, DESENHAVA COM PERFEIÇÃO, ME DAVA IDÉIAS PARA FAZER FANTASIAS PARA AS MATINÊS DE CARNAVAL, PARA AS APRESENTAÇÕES DE DANÇA DA ESCOLA. SIGO VAGANDO, VENDO E OUVINDO TUDO ISSO!
 HAVIA UM SOFÁ-CAMA NA SALA DE TV, VERMELHO E ALI NÓS NOS DEITÁVAMOS PARA ASSISTIR ALGO QUE NÃO TINHA A MENOR IMPORTÂNCIA PARA MIM, QUEM EU QUERIA ESTAVA DEITADA ALI COMIGO! ENVOLVIDA NUM ROUPÃO ACOLCHOADO PEGAVA UM PUNHADO DE BALAS DE MENTA E DISTRIBUÍA.
                                                          Ana Lourenço da Silva

 VEZ OU OUTRA, ANA LOURENÇO, MINHA TIA AVÓ, TAMBÉM VINHA PASSAR AQUELAS HORAS MÁGICAS CONOSCO. QUANDO VINHA, TRAZIA PEQUENOS PÃES FEITOS POR ELA, CUIDADOSAMENTE EMBRULHADOS EM GUARDANAPOS BRANCOS. SÉRIA COMO MEU AVÔ, SOMENTE ESBOÇAVA ALGUNS SORRISOS ENQUANTO NÓS NOS PERDÍAMOS EM CONSTRUTORA ALGAZARRA. E A ALEGRIA DISPERSAVA-SE PELA CASA.
 APAGÁVAMOS AS LUZES E NADIR COMEÇAVA, COM AS MÃOS, A CRIAR IMAGENS QUE SE MOVIMENTAVAM NAS PAREDES.
 O RELÓGIO CONTINUA A ADENTRAR O TEMPO FUTURO, MAS AS LUZES AMARELADAS E ENVELHECIDAS DOS CANTOS DE MINHA ALMA, CONTINUAM ME ARRASTANDO VELOZMENTE PARA O PASSADO. TODAS AS CORES ESTÃO DESBOTADAS... APARECEM VULTOS... QUERO CONTINUAR ALI... O SABOR DO LEITE QUE MADRINHA PREPARARA PRA NÓS ME FAZ ASSENTAR A ALMA EM VIAGEM, POR MAIS ALGUNS MINUTOS... SAUDADES INTENSAS ME DIZEM NOS OUVIDOS QUE DEVO FICAR UM POUCO MAIS E ESPERAR ELIZEU.
 PADRINHO, JÁ BRAVO COM A BALBÚRDIA DAS CORRERIAS PELA SALA! AS RISADAS ALTAS E SOLTAS RESSOAM PELA CASA. A CRISTALEIRA VIBRA NO CHÃO DA SALA E O VELHO RELÓGIO AMEAÇA O FIM DE MINHAS FELIZES HORAS. AS FIGURAS CONTINUAM A DANÇAR NAS PAREDES NUM BONITO JOGO DE LUZ E SOMBRAS E PASSEIAM DENTRO DE MIM. APESAR DO FRIO, SINTO SOMENTE O CONFORTO DE ESTAR DENTRO DO CASTELO DE MEUS SONHOS INFANTIS, A SEGURANÇA DAQUELAS VOZES QUE SEI QUE ME ACOMPANHAM HÁ MILHARES DE ANOS. MINHA MÃE!!!
 AH! O INCESSANTE CAMINHAR DOS PONTEIROS DO VELHO RELÓGIO. OUVE-SE O APITO ESTRIDENTE DO TREM E EM ALGUNS MINUTOS ELIZEU ESTARÁ CHEGANDO.
 ELE ENTRA NA CASA, COLOCA SUA MALETA DE TRABALHO SOBRE A MESA DA SALA DO MEIO, E SEGUE O CHEIRO BOM DO CAFÉ NOTURNO DE MINHA MADRINHA, O AROMA DOS PÃES DE ANA LOURENÇO.
 E A MENINA QUE NAQUELE MOMENTO HABITA EM MIM, COMEÇA A ENTRITECER-SE... NADIR VAI EMBORA... QUERO QUE FIQUE... QUERO FICAR TAMBÉM NA ESCURIDÃO QUEBRADA PELO AMARELADO DAS PEQUENAS LUZES... O TÚNEL COMEÇA A FORMAR-SE NOVAMENTE PARA QUE EU VAGUE NO CAMINHO DE VOLTA... SOU CRIANÇA, NÃO QUERO ACEITAR... QUERO MINHAS EMOÇÕES DAQUELE MOMENTO, A SALA DAS ARTES DE NADIR, AS RAÍZES DA VELHA CASA, A MADEIRA QUE ESTALA E FALA COMIGO... ME CONTA SEGREDOS...A CONVERSA DE MINHA MÃE E MEUS PADRINHOS, O SORRISO INOCENTE DE EDITHE... COM ESFORÇO AJUDADO POR SERES MAIORES, ACOMPANHO ANA LOURENÇO, QUE É A PRIMEIRA QUE SAI DE CENA. MEU AVÔ RECOLHE-SE. EDITHE SE ESVAI EM VAPOROSA FRAGRÂNCIA DE GUARDADOS E RECORDAÇÕES. E DEIXA UMA NUVEM CHEIRANDO A "CASHEMIRE BOUQUET" . MEU PAI DESAPARECE EM SEU LARGO SORRISO. MINHA AVÓ... MINHA AVÓ ME ABRAÇA E COM ELA SE VÃO ALGUMAS DAS LUZES AMARELAS. MINHA MÃE SEGURA MINHA MÃO COM SUA SABEDORIA DISCRETA, E ME LEVA ATÉ A PORTA PARA DESPEDIR-ME DE NADIR E ELIZEU. A ESCURIDÃO ATRÁS DE NÓS ME MOSTRA INSISTENTEMENTE O TÚNEL DO TEMPO PRESENTE, E APENAS O CAMINHAR DOS PONTEIROS SE FAZ OUVIR INCESSANTEMENTE NA SALA QUE VAI FICANDO PARA TRÁS!
 GIRO O TRINCO DE MADEIRA COM FORMAS ARREDONDADAS E PERGUNTO A NADIR E ELIZEU SE VOLTARÃO NA NOITE SEGUINTE.
                     Nadir Lourenço dos Santos e Elizeu dos Santos.

 O VENTO FRIO AUMENTA LÁ FORA E GELA MINHA BOCA INTENSIFICANDO A MENTA DAS BALAS. NADIR PROMETE VOLTAR.
 OLHANDO OS OLHOS SURREAIS DE MINHA MÃE, ME ACALMO NA CERTEZA DE QUE NADIR VOLTARÁ! VOLTARÁ SEMPRE... E PELAS RUAS DE PARALELEPÍPEDOS OUÇO O DESAPARECER DE SEUS PASSOS ETÉREOS.
 VOLTO PARA O TÚNEL, NA SALA JÁ NÃO HÁ MAIS AS LUZES AMARELAS, NEM O CHEIRO DO CAFÉ E LEITE ADOÇADO... SOMENTE UM ECO DE VOZES DESAPARECENDO NA ESCURIDÃO... SINTO AS MÃOS DE MINHA MÃE NAS MINHAS MÃOS... VAGO DE VOLTA E VIAJO ENTRE VULTOS E CLARÕES QUE NÃO CONSIGO DECIFRAR... JÁ NÃO OUÇO O RELÓGIO DE CAMINHAR TEIMOSO...O RELÓGIO ESTÁ PARADO, ME ESPERANDO VOLTAR NO TEMPO E NO ESPAÇO, RASGADO PELO TÚNEL.
 VOLTO COM A CERTEZA DE OUTRAS VIAGENS E EM PLENA SINTONIA COM O CARÁTER CÍCLICO DA ETERNIDADE, COM A JUSTA TRANSITORIEDADE DA VIDA, COM O RENASCER CONSTANTE DAS ALMAS.
 ARTES DE NADIR... PONTEIROS DO TEMPO... LUZES DAS ALMAS...

 CÉLIA MOTTA                                                                          guardiadelendas.blogspot.com

terça-feira, 20 de março de 2018

Para pensar...


Pairando entre o estarrecedor e o imprescindível, entretanto o mais necessário lembrete para nós, povo da nossa estranha nação. Só a verdade liberta. Só o conhecimento transforma. Só a coragem constrói.

 Reverenciando tantas Marieles, tantos Ulisses, tantos Juscelinos, Eduardos, Jangos e Tancredos. Gente que viveu para as coletividades. Gente que morreu, sempre sem convincente explicação, por amor a sua gente. Gente, que pela sua conduta e atitude diferenciada, tornou-se imortalizada. Além, é claro, daqueles que viveram e morreram no anonimato, desafiando os poderes sordidamente estabelecidos, com a ousadia no peito e o fogo nos olhos, queimando sempre para o Bem. Gente que contrariou a ordem em desordem.
Raros e insuperáveis, cada um a seu modo.
Insubstituíveis em sua área de ação.
Donos de legados de raça e emoção.
Corajosos e virtuosos, em extinção...

E o pior de tudo, é perceber ao final, que a gente sempre soube de tudo isso, desde sempre.
Já que sabemos, que não nos falte a atitude e o comprometimento.



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                                                                                            Célia Motta.

quinta-feira, 15 de março de 2018

"Fábrica de Violas"



Pouquíssima gente sabe, mas em nossas imediações, entre o final da década de 20 e o início da década de 30, havia no Sítio São Vicente, um fabricante de violas.
As informações e a viola, são do nosso constante colaborador, colecionador de histórias interessantes e fatos intrigantes, João Grego.
João descende de Antonio Moraes, o fabricante de violas. Segundo joão Grego, o seu tio Antonio, colocava um guizo de cobra cascavel dentro de cada viola.
O detalhe, é que Antonio Moraes, retirava o guizo sem matar a cobra. Com o coração e as mãos de artista, já se preocupava com a conservação da natureza e os seus sagrados seres.
O guizo de cobra cascavel, colocado no bojo da viola, segundo a tradição caipira, melhora o som anulando a vibração. Entretanto, também é da tradição caipira e da cultura dos violeiros, a crença na proteção  contra o mal, quando se carrega o guizo dentro da viola, durante as toadas.
Serviria ainda, a presença do guizo, para emanar de si, a mesma destreza e agilidade da natureza das serpentes, contagiando a alma, e se manifestando nos dedos do violeiro, enfeitiçando assim as suas melodias, que se tornariam encantadas.
Agora o mais tocante de tudo isso, é que naqueles dias dos anos 20, o ponto que o nosso mago fabricante escolheu para vender as suas violas artesanais, foi a Estação de Trem do distrito de Alfredo Guedes.
E assim, dedilhando as cordas do sedutor instrumento, impregnando de musicalidade e feitiço as paredes vivas de nossa estação, vendia as suas violas, o artista artesão, embalando os caminhares das moças, Antonio Moraes, tio de João!



Antonio não teve filhos. Casou-se com Brasilina Vieira Bueno, irmã de dona Francisca Vieira Portes avó de João Grego.Seu legado, a sua arte e o acervo de histórias deixado para João. Bonito que chega a doer...

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terça-feira, 6 de março de 2018

"UNIVERSO FEMININO" / SOBRE O DIA 08 DE MARÇO

Quando vem se aproximando o Dia Internacional da Mulher, como mulher, tenho a obrigação de repetir um antigo texto, já escrito por mim, sobre as mulheres e tudo o que se camufla atrás dessa data comemorativa.
Como negra, tenho a obrigação com toda a minha ascendência ancestral, de bradar aos ventos, que conosco, ainda é mais difícil exercer a cidadania com total integridade.
Como alguém que sempre viveu a liberdade em sua plenitude, sem tabus, sem regras impostas, sem amarras religiosas, sem pais repressores, sem hipocrisia e sem falsos moralismos, devo bradar que ainda estamos gritando e deixando que o vento carregue os ecos de nossas vozes, ainda tão presas pelas instituições conservadoras. Devo delatar o pano de fundo e os porões dessa festa, ainda vã.
Não queremos a cultura tola, rasa e infrutífera, que nos transforma em bonecas teleguiadas, onde se desconsideram os nossos ideais mais intensos, de raízes mais profundas e se exaltam corpos que envelhecerão, sustentando uma cabeça sem legado.
Não queremos mitos imbecis e sem idéias inteligentes! Queremos gente!
Gente que carrega verdade e valores, princípios e sentimentos nobres!
Não queremos essa mídia que nos "coisifica" em relação ao homem, que nos subjuga e julga!
Exigimos respeito pois somos pessoas!
A torpeza nas falas de uma de nós, justificando um estupro ou um caso asqueroso de pedofilia, sobre a conduta liberal de muitas de nós, ou sobre as respostas físicas de um corpo infantil e um cérebro imaturo, nos enoja e envergonha a nossa casta.
A rudeza do machismo que brota em áridos desertos da alma, seja calcado numa sociedade demagoga ou em dogmas ignóbeis sem fundamento prático, descontextualizados da nossa realidade, desperta a nossa repulsa!
Eu, desconheço seres mais belos e profundos do que a face feminina do Criador: a mulher!
Mas ainda não entendo a troca de votos comemorativos, quando ainda escravizam a minha cor! Quando ainda esperam uma mudança de meus cabelos! Quando me estabelecem um modelo e um peso padrão! Quando ainda pensam ser possível limitar os meus atos! Quando querem me submeter a um rótulo! Quando recebo menos que o meu parceiro por um mesmo trabalho! Quando tenho uma sobrecarga de tarefas domésticas, por ser mulher! Quando se exige que a menina se porte de modo tímido em relação ao menino! Quando ouço:"Ah; mas ele é homem"! Quando renegam a beleza dos ciclos da menstruação! Quando negam a poesia da amamentação!
Quando uma mulher que sofre violência, passa de vítima a algoz de si mesma! Quando um pedófilo é apoiado por uma fêmea, seja ela mãe ou companheira!
Quando escuto que o aborto é praticado somente pela mãe! Quando escuto que somente a mãe abandonou o seu rebento ao relento!
Quando o filho é só da mãe!
Mentiras covardes estruturadas sobre padrões bíblicos, inúteis ao nosso tempo! Fantasmas sombrios de imbecilidade  do passado distante, que transforma em bruxaria as nossas artes de amantes...
Que as labaredas do fogo das medievais fogueiras, que já nos queimaram cruelmente, destruam tamanhas correntes!
Que o vento carregue as suas cinzas dementes!
Para sempre...
Que vença a tolerância, que viva o diferente.
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                                                                                       Célia Motta.
                                             
                                         Célia Motta
                           

QUE SE FAÇA DENTRO DE CADA UMA DE NÓS, A REFLEXÃO DO QUE REPRESENTA O DIA INTERNACIONAL DA MULHER, E COMO VIVEM DE FATO AS MULHERES NO COTIDIANO. BUSQUEMOS A IGUALDADE!
QUE NÃO PERCAMOS DE VISTA O QUANTO HÁ PARA COMEMORAR, MAS PRINCIPALMENTE, TUDO O QUE AINDA ESTÁ AÍ PARA SER MUDADO.
QUE NÃO ABANDONEMOS A LINHA DE FRENTE DO BOM COMBATE A SER PROTAGONIZADA POR NÓS, MULHERES.
QUE NÃO NOS FALTE GRAÇA, GANAS E GARRAS.
QUE A MANSIDÃO E A DELICADEZA JAMAIS SEJAM OMISSÃO E CONFORMISMO.
QUE NÃO NOS BASTE A HOMENAGEM, MAS SIM O RECONHECIMENTO, A PLENA CIDADANIA, E A LIBERDADE.
QUE AS NOSSAS ANCESTRAIS NOS ABENÇOEM E NOS INSPIREM!
QUE RESSURJAM EM NÓS, DE DENTRO PARA FORA, BROTANDO JARDINS DE FORÇA E DE LUZ.
QUE A NOSSA RESPOSTA AOS DESMANDOS E ÀS FOGUEIRAS DO PASSADO, ÀS HUMILHAÇÕES E À VIOLÊNCIA, À EXPLORAÇÃO E À EXCLUSÃO SOB AS DIVERSAS FORMAS, À SOBRECARGA DE TAREFAS DOMÉSTICAS DO DIA A DIA; SEJA O NOSSO SORRISO E AS NOSSAS AÇÕES ERGUENDO-SE PARA TODO O SEMPRE... 
SEJA A NOSSA CONTEMPLAÇÃO DA MÃE LUA A ILUMINAR A NOSSA INTUIÇÃO... A DESPEJAR BRILHO EM NOSSAS ATITUDES.
QUE AOS NOSSOS OLHOS DE AÇÚCAR, NUNCA FALTE O FOGO DO CONHECIMENTO E DA SABEDORIA.
E QUE NO FUTURO, NÓS TENHAMOS MAIS E MAIS MOTIVOS EFETIVOS E CONCRETOS, PARA COMEMORAR O NOSSO DIA!
                                                                                          guardiadelendas.blogspot.com
                                                                                          Célia Motta








quinta-feira, 1 de março de 2018

"Musicistas do Tempo"

Essa belezura de fotografia, carrega perfumes que eu ainda não soube definir.
Carrega traços de uma poesia esquecida no fundo de uma gaveta que perdeu-se no tempo e no espaço. Carrega a força feminina da fertilidade... creio que seja a parte feminina de Deus, o seu olhar feminino mirado pela Mãe da Sabedoria, um braço afável e manso que tudo acolhe.
Carrega traços de uma formosura indefinível, que escorrega aqui e acolá, alternando o sábio e o imprudente, o resignado e o vidente, o sagrado e o profano, o sóbrio e o insano.
Deusa mãe e benfeitora, intelectual e protetora! Santificada força Criadora!
São as meninas de Anália.
Anália bela, Anália esperança, deixando sóis e sóis entrarem por janelas por ela abertas...
Anália também criança, fertilidade de alma, encantamento e bonança...
Carrega também, traças multiplicadas pelo passar das tantas e tantas horas...
Poeira fina faz névoa em minha visão, mas pulsam todas as verdades antigas em cada retumbar do coração... levante da história em cada resgate e em cada lapidação!
Misterioso garimpo em forma de musicalidade... notas entoando emoção.
Espelhos quebrados em penteadeiras de época, ainda guardam os reflexos das moças ajeitando os longos cabelos, pintando lábios de fresca carne.
Mas o vento que tudo leva, despenteia seus cabelos, descolore a sua pintura, empalidece sua pele... as traças roem suas vestes... se vão para muito longe, embaladas pela aguda voz do vento... Em lugares longínquos sentem o perfume do último vidro evaporado sobre a penteadeira! É esse o perfume!
Eu chamo por elas, grito por cada nome de mulher, peço a força da Mãe Lua.
E aqui elas regressam, retornam de cada reduto mágico escondido pois a Vida não cessa!
E com elas ressurge Anália, regente de vidas... Eterna...
E cada moça com o seu instrumento na mão... é a música que recomeça!
                                                                           
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                                                                                   Célia Motta.